Pensar Fora Caixa. Não Pera.

Hoje as pessoas falam muito sobre “mudanças no seu mindset” sobre como você deve “pensar fora da caixa”, ver as coisas sobre outras perspectivas. Mas será que o pensar fora da caixa, não se tornou só mais uma caixa da qual você deveria sair de dentro?

Existe um teste, até famoso, onde as pessoas apresentam um labirinto, daqueles que vinham na revistas em quadrinhos, onde vc deveria sair de um lado para o outro, da forma mais rápida. Logo as pessoas descobriram que o “pensar fora da caixa”, naquele contexto era dar a volta no labirinto, mais ou menos assim:

As pessoas que iam pela solução “vermelha” ficam taxadas de quadradas, de terem um pensamento muito dentro da caixa. As pessoas de roxo já se acham criativos, cheios de pensamentos “fora da caixa”, aí, normalmente é apresentada a solução verde (por último), acompanhado de uma explicação sobre “ninguém falou que era para considerar as linhas do labirinto”.

É um exercício interessante. Realmente, as instruções são bem vagas para que as pessoas pensem soluções criativas, fora da caixa. Mas eu tenho um problema com esse tipo de exercício, na vida real isso não existe. As pessoas precisam ser criativas, pensar fora da caixa, mas em situações da vida real, é necessário refletir bem, considerar as consequências de nossas atitudes, antes de tomarmos uma decisão.

Essa cultura da ‘solução mágica’ é ruim, acabamos passando a impressão que os problemas complexos do mundo real podem ser resolvidos por coisas simples, não é bem assim. Lembro de uma anedota sobre a NASA: “a NASA investiu meio bilhão de reais para criar uma caneta especial, os astronautas, no espaço, não podem usar canetas normais, pois não há a gravidade que leva as tintas para baixo, o que inviabiliza o uso de uma esferográfica comum, com esse investimento a NASA criou uma caneta que funciona sem gravidade. A Agência Espacial Russa usa um lápis”. Brilhante não é? Mas isso é mentira! Não existem soluções simples para problemas complexos, a sua criatividade deve existir dentro do contexto de complexidade do problema.

Vamos a um exemplo: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no dia 19 de Março de 2020, lançou os “olhos” do mundo sobre a Hidroxicloroquina, como um remédio para o tratamento ao COVID-19 (veja a notícia), o que foi amplamente comprado pela direita brasileira. Três dias antes, no dia 16, Cuba havia anunciado a descoberta da cura de COVID, com Interferon Alfa-2b (veja a notícia), esse anuncio, à época, foi comprado pela nossa esquerda. Até o momento que escrevo essa postagem (20 de maio de 2020), nenhum dos dois parece ser eficaz como “anunciaram”. Não sou médico, mas pelo que li, dificilmente teremos um medicamento que, sozinho, vá servir para todos os casos de COVID-19. Ocorre que, dificilmente, uma doença viral como o influenza tenha “cura”, poderemos ter vacina e temos tratamento, para diminuir a mortalidade ou os efeitos da doença, mas quem vai lhe curar é o seu organismo.

Esse crendice em “soluções mágicas” ou criativas, acabou por criar o famoso “jeitinho brasileiro”, reconhecidamente uma característica inovadora dos que são nascido neste país. Mas, voltando ao nosso exemplo do labirinto, até onde o “nosso jeitinho” não é uma fuga às regras? Toda vez que você chegar em um local e ver uma fila no self-service, olhar do lado e vê uma fila menor para a carne e pensar: “bando de otário, podiam ir direto para a carne ao invés de ficar na fila do self-service”, pense que vc entrar no meio de onde servem o churrasco estará atrapalhando todos os que estão no self-service, ninguém fica na fila porque gosta dela, mas por respeito a todos os outros que chegaram antes e estão na mesma.

Então, quando alguém lhe pedir para pensar fora da caixa, analise com cuidado, não existem soluções mágicas ou simples, principalmente para assuntos complexos. Pense nos efeitos colaterais, considere por que ninguém está fazendo assim? Pergunte. E, principalmente, seja empático com os outros, ninguém é “otário” ou “quadrado” porque quer, algumas vezes só estamos tentando seguir as regras, como elas são. Pense na solução roxa, na vermelha, na verde e em outras tantas quanto você conseguir, mas fique com um pé atrás para adotar solução verde, tenha absoluta certeza que ela não está quebrando as regras, porque ninguém gosta de “espertalhões”.