Fake News

É comum, hoje em dia, ouvir um comentário do tipo: “aquela fake news  foi divulgada nas redes sociais pelo fulano”, mas você sabe o que é fake news e como identificá-la? O termo veio do Inglês e, ao pé da letra, significa algo como notícia falsa. No entanto, hoje em dia, ele parece está sendo utilizado para identificar desde boatos até notícias que não agradam determinados grupos.


Vou apresentar alguns exemplos do que se chama fake news para que você possa saber o tipo de notícia que está consumindo. Para todos os exemplos aqui vou utilizar o seguinte fato: “meu filho mais velho ouvi um latido de choro do nosso cachorro e, ao olhar na direção dele, viu nossos três gatos próximos ao caxhorrro, o gato macho ‘eriçado’ e o cão com um sangramento no focinho”.  Veremos esse fato contado por três pessoas: meu filho mais velho, que adora o cachorro, e não tem predileção por nenhum dos gatos; minha esposa, que adora o cachorro e todos os gatos, e por mim, que quero me livrar de todos os gatos (esta é uma história fictícia, qualquer semelhança com uma história real, é mera coincidência).

imagem mostrando os três gatos e o cachorro com o ferimento, o grato preto estaria eriçado
A imagem vista pelo meu filho

Meia Verdade

É quando a notícia apresenta uma história real, mas com alteração em alguma parte crucial da história, de forma a trazer mais “credibilidade” ao que se quer. Neste caso, por exemplo, minha esposa poderia criar a seguinte “fake news”:

Acidente em brincadeira: enquanto o cachorro e os três gatos de casa brincavam alegremente, por um descuido deles, houve um acidente onde o cachorro teve leves arranhões. Apesar do ocorrido todos passam bem.

Vejam que esta versão é verossímil e, inclusive, é plausível. Contudo, pelo que temos apurado dos fatos não temos como garantir que foi isso que ocorreu, na verdade, é mais provável que não tenha sido exatamente assim. Este é o tipo mais difícil de detectar de ‘fake news’, pois se vale de fatos e dados verdadeiros, omitindo, por conveniência o que lhe contrarie.

Mentira

É quando a notícia parte de pressupostos que não são verdadeiros, que não foram verificados, é um tipo mais simples de fake news, e, por isso, mais fácil de ser descoberta, basta uma verificação das fontes. No nosso exemplo, eu poderia ter levantando a seguinte notícia:

Gatos em excesso na casa causam estresse a todos. Segundo estudos desenvolvidos pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) quando temos mais de um gato numa mesma residência o estresse dos animais de estimação é elevado, o que acaba, em mais de 70% dos casos, em gerar atrito entre os animais, principalmente inter-espécies, segundo o Doutor em Medicina Veterinária e Pesquisador da UFRPE Dr. Adalberto Schumam “Em nosso estudo, com mais de 10 mil residências, quando temos mais de dois gatos, por exemplo,  e um cachorro, o estresse pode acabar por gerar brigas, ocasionando ferimentos mútuos entre os animais”.

Esta versão tenta passar confiabilidade utilizando nome de instituições reais, muitas vezes com nome de pessoas reais (o que evitei aqui), além de dar uma aspecto “científico”, muita vezes citando leis ou números inexistentes.


Boato

O boato na internet é um tipo de mentira, ele, normalmente, é anedótico e serve mais como “brincadeira”, mas é a origem das ‘Fakes News’, o boato veio antes, nos primórdios da internet, era compartilhado por e-mail. Por exemplo, na Copa do Mundo de 1998, quando o Brasil perdeu a final para a França, apareceu o boato, na internet, que foi tudo um jogo da Nike (esse boato já foi requentado tantas vezes, que sempre me assusta como as pessoas caem). Os boatos são as mães das ‘Fake News’, foram eles que mostraram que o ser humano está pronto para acreditar em qualquer sandice que tenha um texto “acreditável” junto, principalmente se o mesmo parecer mostrar uma teoria da conspiração, algo que “a elite”, “o sistema”, “eles” estejam escondendo de todos.

Viés editorial

Não se trata, tecnicamente, de uma fake news, mas alguns veículos possuem um viés editorial tão forte, que, qualquer que seja a notícia, deixam de considerar os outros possíveis lados da história. Em nosso exemplo, poderíamos ter a seguinte nota, pelo meu filho:

Cachorro é atacado por gatos. O cachorro de estimação da família, sem nenhuma causa identificada, foi atacado pelos três gatos, da mesma família, em conluio. O cachorro acabou ferido. Apesar disso, nada foi feito contra os gatos.

Nesta versão não há nada de inventado, e descreve, à sua maneira, exatamente o que aconteceu, mas o viés da notícia é bem clara: o cachorro é a vítima e os gatos são os vilões. Não sabemos, e nunca saberemos, ao certo o que levou um dos gatos a atacar o cachorro, mas, com toda certeza, os gatos não entraram em conluio para atacá-lo. Não há nada de errado com a notícia, mas ela não tem a isenção suficiente para ser considerada como boa notícia, mas, repito, apesar de alguns chamarem de ‘fake news’ não é, tecnicamente falando, uma notícia falsa.


Todo veículo de comunicação, seja ele da imprensa ou um blog independente, tem por função comunicar e convencer a quem o consome, ou seja, todos têm o viés editorial que falei acima. É por isso que você sabe que determinado jornal é “de oposição” e tal blog é “pró governo”. Isso é inevitável e, por isso, não é errado. Contudo temos que ter cuidado, ao consumirmos somente as notícias de uma determinado viés, acabamos por perder nosso senso crítico, acabamos por acreditar que os fatos narrados são sempre como aquele veículo narra.

O que fazer?

O ideal seria você consumir a mesma notícia em todos os viés possíveis, o mais antagônicos, para que você saiba decidir qual é o mais correto, o mais certo. Tenha cuidado com isso também, sempre iremos simpatizar mais com algumas idéias que com outras, eu diria que nós também temos nosso viés, mas não deveríamos nos fechar ao argumento e ao pensamento divergente.

Uma atitude que o leitor deve ter é sempre desconfiar da notícia, de toda notícia. Principalmente, desconfie com mais força das notícias que parecem reforçar seus sentimentos e argumentos. Por que fazer isso? Se uma notícia parece falar diretamente com o que você está sentido, é bem provável que ela tenha sido redigida para ser assim, ou seja, ela pode está buscando atingir seus sentimentos e focando menos nos fatos e evidências.

Mesmo quando uma notícia apresenta fontes confiáveis, ela pode não ser honesta, estando tão perdida em seu viés que beira a meia verdade. Hoje em dia as pessoas estão apegadas no “tem um artigo científico sobre isso”, o que demonstra que as pessoas não entendem sobre o processo de fazer ciência. São escritos artigos sobre qualquer coisa, que defendam quase que qualquer argumento e é fundamental que seja assim, o fato de existir um artigo sobre algo não quer dizer que isso valide o que está sendo apresentado.


Lembrem-se, contra fatos não há argumentos, mas um mesmo fato pode ser visto, interpretado e narrado de várias maneiras diferentes.

Pensar Fora Caixa. Não Pera.

Hoje as pessoas falam muito sobre “mudanças no seu mindset” sobre como você deve “pensar fora da caixa”, ver as coisas sobre outras perspectivas. Mas será que o pensar fora da caixa, não se tornou só mais uma caixa da qual você deveria sair de dentro?

Existe um teste, até famoso, onde as pessoas apresentam um labirinto, daqueles que vinham na revistas em quadrinhos, onde vc deveria sair de um lado para o outro, da forma mais rápida. Logo as pessoas descobriram que o “pensar fora da caixa”, naquele contexto era dar a volta no labirinto, mais ou menos assim:

As pessoas que iam pela solução “vermelha” ficam taxadas de quadradas, de terem um pensamento muito dentro da caixa. As pessoas de roxo já se acham criativos, cheios de pensamentos “fora da caixa”, aí, normalmente é apresentada a solução verde (por último), acompanhado de uma explicação sobre “ninguém falou que era para considerar as linhas do labirinto”.

É um exercício interessante. Realmente, as instruções são bem vagas para que as pessoas pensem soluções criativas, fora da caixa. Mas eu tenho um problema com esse tipo de exercício, na vida real isso não existe. As pessoas precisam ser criativas, pensar fora da caixa, mas em situações da vida real, é necessário refletir bem, considerar as consequências de nossas atitudes, antes de tomarmos uma decisão.

Essa cultura da ‘solução mágica’ é ruim, acabamos passando a impressão que os problemas complexos do mundo real podem ser resolvidos por coisas simples, não é bem assim. Lembro de uma anedota sobre a NASA: “a NASA investiu meio bilhão de reais para criar uma caneta especial, os astronautas, no espaço, não podem usar canetas normais, pois não há a gravidade que leva as tintas para baixo, o que inviabiliza o uso de uma esferográfica comum, com esse investimento a NASA criou uma caneta que funciona sem gravidade. A Agência Espacial Russa usa um lápis”. Brilhante não é? Mas isso é mentira! Não existem soluções simples para problemas complexos, a sua criatividade deve existir dentro do contexto de complexidade do problema.

Vamos a um exemplo: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no dia 19 de Março de 2020, lançou os “olhos” do mundo sobre a Hidroxicloroquina, como um remédio para o tratamento ao COVID-19 (veja a notícia), o que foi amplamente comprado pela direita brasileira. Três dias antes, no dia 16, Cuba havia anunciado a descoberta da cura de COVID, com Interferon Alfa-2b (veja a notícia), esse anuncio, à época, foi comprado pela nossa esquerda. Até o momento que escrevo essa postagem (20 de maio de 2020), nenhum dos dois parece ser eficaz como “anunciaram”. Não sou médico, mas pelo que li, dificilmente teremos um medicamento que, sozinho, vá servir para todos os casos de COVID-19. Ocorre que, dificilmente, uma doença viral como o influenza tenha “cura”, poderemos ter vacina e temos tratamento, para diminuir a mortalidade ou os efeitos da doença, mas quem vai lhe curar é o seu organismo.

Esse crendice em “soluções mágicas” ou criativas, acabou por criar o famoso “jeitinho brasileiro”, reconhecidamente uma característica inovadora dos que são nascido neste país. Mas, voltando ao nosso exemplo do labirinto, até onde o “nosso jeitinho” não é uma fuga às regras? Toda vez que você chegar em um local e ver uma fila no self-service, olhar do lado e vê uma fila menor para a carne e pensar: “bando de otário, podiam ir direto para a carne ao invés de ficar na fila do self-service”, pense que vc entrar no meio de onde servem o churrasco estará atrapalhando todos os que estão no self-service, ninguém fica na fila porque gosta dela, mas por respeito a todos os outros que chegaram antes e estão na mesma.

Então, quando alguém lhe pedir para pensar fora da caixa, analise com cuidado, não existem soluções mágicas ou simples, principalmente para assuntos complexos. Pense nos efeitos colaterais, considere por que ninguém está fazendo assim? Pergunte. E, principalmente, seja empático com os outros, ninguém é “otário” ou “quadrado” porque quer, algumas vezes só estamos tentando seguir as regras, como elas são. Pense na solução roxa, na vermelha, na verde e em outras tantas quanto você conseguir, mas fique com um pé atrás para adotar solução verde, tenha absoluta certeza que ela não está quebrando as regras, porque ninguém gosta de “espertalhões”.